Sentimento de culpa é o brinde recebido por toda mulher que pariu. Sentimento de onipotência é outro mimo que ganhamos na saída da maternidade. Um contradiz o outro, um complementa o outro. Horas você se sente a última das mães por achar que não está acertando, horas você acha que só você é capaz de desempenhar todas as tarefas relacionadas a seu filho da melhor forma. Contraditório não? Suspeite como seria se um desses dois presentinhos desparecessem. Seríamos os demônios de nós mesmas ou as deusas de nós mesmas. Cruz credo!
O que enxergo como interessante nessa gangorra é que, opostos ou jogando do mesmo lado, os dois sentimentos revelam algo verdadeiro, natural e evolutivo. Nós erramos! Mesmo. Assumam todas, sem vergonha de não ser a super mãe que sonha. Dói, eu sei. Mas erramos todos os dias, uns mais outros menos. Em detalhes, em exageros, porque somos detalhistas demais, exageradas demais. E qual é o problema? Nenhum.
Digo nenhum quando penso em erros de quem quer sempre fazer o melhor do melhor e que nem sempre consegue ou acha que está conseguindo e o efeito está sendo o oposto. Leiam bem, não me refiro à omissão, falta de cuidados, má educação, maus tratos ou coisas piores ok? Isso é imperdoável e não cabe julgamento no tribunal das mães que instauro aqui neste texto, mas com certeza em outro.
Voltemos às mães a que me refiro. Queridas rés, juízas de nós mesmas, temos de nos declarar culpadas! Não é isso que esperavam? Pois é o meu veretito. Cometemos pequenos delitos. São inocentes, sem maldade nenhuma, mas que acontecem no exercício diário de nossa função. De quem seria a culpa se não nossa? Pode parecer inovador, mas sugiro assumirmos nossa culpa diante de nossos próprios passos em falso para, assim, cumprirmos nossa pena interior e voltar à liberdade.
Eu tentando fazer meu filho comer nesta semana, preocupada com o fato dele não querer nem sequer tocar na comida (e sem paciência), forcei uma garfada. Terrível. Culpada! Mereço horas e horas de prisão em mim mesma. E nao digam que isso é sentimento de culpa, é culpa mesmo. Fiz algo que não deveria ter feito, pois já conheço todo o processo dele de não querer comer e as consequências de forçá-lo. Minha pena? Pedi mil desculpas à vítima, expliquei como o que eu havia feito não era correto e que não faria mais. Passei a tarde toda na penitenciária da minha mente, refletindo sobre meu ato. No fim do dia, recebi habeas corpus, depois liberdade condicional e hoje posso encarar o lado de fora consciente e em paz. Não erro mais. Não quero voltar à prisão.
Este é um episódio dos vários que acontecem na prática, não é? Comportamento inadequado porém natural, que temos sem querer o mal e sim o bem e que, por isso, reconhecendo a culpa, ele pode nos ajudar a evoluir. Verdadeiro, natural, evolutivo, lembra? Esta é minha proposta. Pararmos de nos esconder sempre atrás do sentimento de culpa maternal e ver que às vezes temos culpa, porque o sentimento existe quando achamos que erramos mesmo sem errar e a culpa é quando erramos, mesmo que seja sem intenção. Erro não doloso, mas culposo. Assumir isso nos ajuda a sermos menos onipotentes, mas não menos mães. E nos torna o que precisamos ser de verdade: potentes!
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