Muitas mulheres quando engravidam já tem por definido nunca largar a profissão, nem mesmo por alguns meses depois do parto. Elas chegam a se contorcer só de imaginar como será ficar afastada durante a licença-maternidade. Outras tem como certo que irão ficar longe do mercado mais tempo do que o permitido por lei e se tornam poços de ansiedade à espera do momento de dar um basta na carreira, seja ela qual for. E tem aquelas que nem tiveram tempo de refletir antes de saber que estavam esperando um filho. Todas podem mudar de opinião.
Falo isso porque sou uma delas. Lembro muito bem de, grávida de cerca de seis meses, conversar com meu marido sobre minha volta ao trabalho. Naquela época eu já era jornalista freelancer por vontade própria, mas sabia que o ideal seria eu arrumar um emprego jornalísticamente correto, isto é, uma redação para eu frequentar. Então, imaginava que depois de seis meses de licença (se eu não era contratada poderia estender os quatro meses convencionais), eu iria em busca de algo para mim. Só que já me doía pensar em ficar o dia todo fora, o que fazia eu pensar que trabalharia meio-período e tudo ficaria bem. Se está pensando que eu não encontrei uma vaga assim, está enganada. Eu nem procurei.
Mudei de ideia logo que vi o rostinho mais lindo aparecer diante dos meus olhos. Durante a gestação, não nego, já sentia meu distanciamento da profissão. Escrevi até os oito meses e quando me dei férias senti uma enorme sensação de contentamento, pois dali por diante eu só teria que me preocupar e ocupar com meu filhote que estava chegando. Mas foi parindo que nasceu em mim essa nova versão, nem um pouco preocupada com o futuro profissional e totalmente concentrada na nova e maravilhosa experiência que iria viver. Aquela jovem mulher que sonhava em ser uma super jornalista sofreu uma metamorfose e transformou-se em uma mulher e mãe feliz e completa em sua vida em família. Por mais ligada à carreira que eu fosse, havia uma ligação maior tomando conta de mim e eu decidi ficar só com meu filho sem data para deixar de fazê-lo.
Estou certa de que muitas feministas acham um absurdo o que contei acima. Como assim esquecer de si mesma, da própria profissão, independência e sonhos tão íntimos? É preciso esclarecer que quando isso acontece, não esquecemos necessariamente de nada, apenas priorizamos outras coisas e momentos que sabemos que não vão voltar e sonhos mais íntimos ainda, a ponto de se tornarem inexplicáveis, compreensíveis só para uma pequena parcela da população, aquela que tomou o mesmo rumo. Ainda assim, é impossível entender todas as razões que levam à opção de se voltar à cria 24 horas por dia depois de muitas mulheres terem queimado soutiens e cérebros para melhorar a posição da figura feminina no mundo. Consolem-se todas, pois optar por ser mãe em tempo integral é a mais recente conquista feminista, talvez a maior de todos os tempos.
Hoje, lutamos mais do que nunca para ter o direito de escolha, liberdade, igualdade. Poder escolher ser livre de obrigações, sejam elas conservadoras como ficar na frente do fogão, ou modernas como trabalhar fora com filho pequeno, nos torna ainda mais fortes e merecedoras de respeito tanto quanto homens que sustentam a casa ou se permitem serem sustentados pela nova chefe da casa. Eles podem ganhar menos que as esposas, sem serem menos homens. Elas podem retornar ao lar, sem serem menos mulheres.
E aquelas que se imaginam ficando em casa e decidem tomar outra postura depois, ok. Tudo certo também! Não é menos mulher, nem menos mãe. Temos ou não temos o direito de fazer nossas próprias escolhas? Acho que esse é o verdadeiro empodeiramento feminino. É claro que pensar no que é bom para o filho é fundamental, o maior vínculo que podemos criar com ele, mas respeitar o que faz bem para si não é capaz de quebrá-lo, a não ser que o que beneficie a mãe prejudique o filho. Aí é outra história. Mas tenho certeza que, salvo infelizes excessões, a grande maioria das mamães que escolhem voltar ao mercado logo que a licença acaba pensam e repensam a decisão, encontrando as melhores formas de suprir sua ausência e reduzir qualquer tipo de dano ao bebê, fazendo de tudo para continuar amamentando e chegando em casa correndo para recuperar o tempo perdido.
Há uns dias encontrei uma mãe com a filha de quatro meses. O tic-tac para ela retornar ao antigo emprego estava a deixando louca. Por um lado, ela que sempre achou que voltaria logo a trabalhar, estava desesperada só de imaginar deixar a pequena com alguém e pegar o carro para passar o dia inteiro em um escritório à uma hora de distância. Por outro, ela estava esgotada de só ficar dentro de casa, escutando choro, amamentando, trocando fraldas e sozinha. Tendendo a optar pela criança, mas angustiada com a rotina cansativa, me perguntou como eu aguentava, se eu não fiquei louca, se ainda não fico e outras coisinhas mais. Respondi que não, pois tinha sido minha opção e de coração. Nada me agradaria mais naquele momento do que estar ao lado do meu neném, o que ainda me agrada imensamente e me faz avaliar muito bem antes de tomar qualquer atitude contra isso. Mas disse também que fiquei um pouco desesperada em alguns momentos. Isso é normal, é a 'síndrome da mãe em tempo integral".
Sim, você se sente um pouco ou muito sozinha, poucas ou muitas vezes. Você se desepera com o fato de não ter ninguém para te ajudar na maior parte do dia. São comuns crises de choro e um sentimento estranho de "quando vou ter uma vida mais normal?". Sinal de esgotamento mental e físico, também normais na minha opinião. Mas as lágrimas cessam e a calma surge logo que um bocejinho alegra sua tarde solitária e você deixa de se sentir só para se sentir muito bem acompanhada. Esse excesso de companhia também cansa certas vezes, pois esse companheirinho, por mais perfeito que seja, não fala de assuntos variados como cabelo, unhas, ginástica, novela e afins. Ele também não gosta quando você se concentra em se atualizar assistindo ao telejornal e morre de ciúmes de qualquer objeto que possa estragar essa relação tão próxima de vocês e te aproximar do mundo externo, como o laptop ou o celular. Tudo que você lê é sobre choro, cólica, febre e amamentação e isso te deixa meio monotemática, o que só melhora com seu esforço e criatividade de propor diferentes distrações para o pimpolho enquanto tenta saber mais sobre sustentabilidade e política.
Nada disso significa que está com depressão pós-parto ou que fez a escolha errada. São alguns obstáculos óbvios quando a mulher decide estar perto de um pequeno ser que precisa dela tanto quanto ela mesma. Geralmente essas mães, assim como eu, optam ainda por não ter ajudantes e resistem a pedir ajuda de parentes, afinal ela está por conta disso e deve dar conta do recado. Só que isso a faz se sentir um pouco esquecida e relaxada, já que encontrar amigas para um café é improvável e ir à manicure é um luxo supérfluo. Para quê?
Isso me faz lembrar de outra conversa que tive ontem com uma mulher ainda sem filhos que dizia ter chamado a atenção da irmã em relação às calcinhas largas que a mesma insisitia em usar depois da segunda filha já ter mais de um ano. O conselho era para a irmã, mãe e dona de casa, se cuidar, pois o maridão só encontraria mulher bonita e bem arrumada na rua. Ela tem razão. Trabalhando fora, somos obrigadas a nos arrumar. Em casa, nos largamos. Usamos roupas mais confortáveis, menos ajeitadinhas e mal damos um trato no cabelo. Isso é terrível de assumir, mas é normal, coisa de mãe de verdade e não de revista. Mais comum naquelas que ficam em casa, mas ainda aparentes em menor escala nas que retornam ao mercado. Em ambos os casos passa. Logo logo, com alguns toques de familiares e amigas, somados à própria auto-estima ou falta dela, a mãe volta a querer se orgulhar com o que vê no espelho... Mas tem que fazer outra forcinha hein? Principalmente se seu chefe não é o que te olha de cima a baixo, mas o que regurgita em você a cada três ou quatro horas...
Mas fato é que a mulher que vive o outro modo de maternar, saindo cedo de casa, encontra inúmeros desafios também, desde entregar o rebento ainda sonolento nas mãos de alguém até voltar exausta e ter que fazer malabarismos para dar conta de tudo que a espera. Imagino a angústia em estar longe, semelhante e completamente diferente da angústia em estar enclausurada. Não vivo esse outro jeito, mas conheço quem viva e vi de perto muitas dificuldades encontradas por quem acompanhei nessa empreitada, sendo por vontade ou necessidade.
Qualquer decisão quando se tem filhos é diferente, exige mais de nós. Para aquela mãe com a filhinha pequena, por exemplo, mudar de opinião quanto à volta ao mercado é complicado, até amedrontador. Mas, ela está no caminho... Ouvindo a si mesma, tenta negociar com o patrão de trabalhar meio-período e na sede da empresa que fica na sua cidade. Se não conseguir, está disposta a abandonar o salário certo para cuidar da filha. Duvidoso? Não, ela está resolvendo a dúvida do melhor jeito, se respeitando. Porque se tem um conselho que dei a ela e dou a qualquer mãe que sinta essa quedinha por estar em casa é: se é o que quer, é a melhor coisa que pode te acontecer! E para aquela que tiver a queda para o outro lado (me corrijam se eu estiver errada), acho que a frase pode vir a ser a mesma, desde que não traga malefícios ao filho e seja mesmo o que a mãe queira!
Nossa, nunca li um artigo que explicasse tão bem como eu me sinto. Parece que foi escrito por mim, até chorei!
ResponderExcluirUm abraço!
Carolina Duman