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sexta-feira, 27 de maio de 2011

Cuca mestra

Depois de ter filho, muita coisa mudou em mim. Uma delas é a minha proximidade com a cozinha. Quem me conhece sabe que eu nunca fui chegada a um fogão e quem não se atualizou a meu respeito ainda pode jurar que eu não sei cozinhar nem ovo. Atualizem-se, eu sei. E me tornei amiga próxima da culinária. Só não posso dizer que somos melhores amigas, ou talvez até sejamos, mas daquelas que vivem em pé de guerra para fazer as pazes em seguida. Temos, por assim dizer, uma relação de amor e ódio.
Ontem, eu saí da cozinha com ódio. Hoje, voltamos às boas. E quem me fez erguer o pano de prato branco foi meu pequeno chef. Por ele, resolvi olhar para aquelas cenouras na geladeira e querer transformá-las em bolo. Dessa vez, tive a ajuda (e quando digo ajuda é ajuda mesmo) do mestre cuquinha, que não ficou com sua panelinha sentado no tapete, mas teve a companhia da mamãe nesse mesmo tapete. Eu desci da pia! Deixei meus ressentimentos com esse ambiente da casa em outro cômodo e me dei ao direito de saborear acompanhada cada detalhe do preparo do bolo mais simples que se pode fazer. Ficamos ali, eu e meu ajudante, sentados, preparando algo que eu já havia feito antes, mas que dessa vez ficou o melhor que já comi! Eu raspava  e cortava a cenoura, ele colocava os pedacinhos no copo do liquidificador, ele segurava a peneira e eu mexia o açucar com a colher para peneirá-lo. Ele untou a forma para mim, mexeu a mistura toda e saiu da cozinha comendo cenoura! Uma grata surpresa para a mãe que já não sabe mais o que fazer para incentivar o filho a dar garfadas mais saudáveis. Uma aulinha prática para ele sobre alimentos e para mim sobre como nunca é tarde para alimentar a auto estima.
Foi uma delícia e achei delicioso compartilhar essa experiência com muitas mães que já devem ter feito isso e outras, como eu, que por medo da bagunça ainda não provaram esse deleite. Bem, bagunçamos um pouco, mas foi tão pouco perto do prazer que tivemos... Foi tanto que me inspirei para continuar ali e preparar uma bela refeição, aquela que eu tinha mesmo que fazer, mas que deixou de ter o peso do "ter que fazer" naquele instante. Sim, se eu pudesse teria alguém para cozinhar para mim. Ajuda o fato de eu não gostar de quase nada que preparo, mesmo outras pessoas jurando que ficou delicioso. Colabora ter resovido mexer a colher de pau só depois de ser mãe, quando o tempo e a falta dele insistem em entornar o caldo.
Cozinhar nunca foi comigo, mas quis aprender para poder oferecer ao meu filho comidas nutritivas e com tempero de mãe. Hoje, digo que cozinhar por obrigação não é comigo, porque faço sim coisinhas bem gostosas, mas detesto ter encontro marcado com as panelas. E tem horas que erro, eu erro!!! Não sou ótima nisso, tenho que assumir sem vergonha, afinal nunca cheguei a menos de um metro do fogão, não sabia o que era nhame e nem como fazer um bom feijão. Demoro horrores para fazer o que qualquer cozinheira mais experiente faz em segundos, sofri para aprender a fazer papinhas gostosas e lamento muitas vezes ter que pensar em diversificar o cardápio, devido ao pouco repertório gourmet que tenho em mente.
Mas, por isso mesmo, sou a rainha da praticidade, aquela que sempre tem uma sopinha ou canja congelada, além de temperos, feijão e franguinho pronto. Meu ponto forte, se é que tenho um nessa área, é saber e querer conhecer tudo que é comida prática, fácil, rápida, simples e deliciosa, desde molhos, aperitivos até bolos e tortas, o que me rendem elogios e afagos no meu ego culinário. Não sei muita coisa, mas amplio meu livrinho de receitas sempre que algo desse tipo cruza meu caminho e minha memória me deixa decorar o passo a passo (além de sem prática, ainda tenho dificuldade de lembrar como se faz!). Se eu ando praticando muito? Digamos que sempre que a obrigação abre a porta da cozinha para eu entrar ou quando um anjinho abre a minha cabeça para eu me permitir apetitosas experiências gastronômicas. Porque não sou mestre cuca, mas se tem algo que faz de mim uma cozinheira dedicada, além do meu degustador oficial, é a minha cuca. Ela é a mestra até nisso! E eu sigo a mestra.

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