Não faz muito tempo, Léo estava brincando na brinquedoteca do hotel onde papai trabalha. Um menininho com pouco mais de dois anos, sobre o qual já escrevi e que vou chamar de João, chegou bem no momento em que o meu reizinho ganhava uma bola do Woody, seu personagem de desenho preferido. Sem nem exitar, o garotinho, que já havia empurrado meu filho e o impedido de brincar com algumas coisinhas segundos antes, arrancou a bola da mão dele. Parenteses: o presenteado mal tinha curtido um minuto com a novidade, mas garanto que era só pedir que ele emprestava na hora. Não teve escolha a não ser ficar esperando o que o mal educado iria fazer depois.
O avô do João pegou a bola e devolveu ao dono. Mais uma vez ela foi arrancada das mãos dele, mais uma vez devolvida pelo avô e não por quem devia devolver. Na terceira vez, Léo ficou enfurecido. Baixou a cabecinha, veio para perto de mim e, com os olhos cheios de lágrimas, falou com voz trêmula: "João, vai embora". Ele não estava só triste, mas com raiva, muita raiva. O menino nem ligou e Léo repetiu a mesma frase. Preocupada em meu pequenino estar faltando com educação (imagine só!), disse que não precisava falar assim, que ele podia ensinar ao "amigo" que brinquedo era para brincar junto, e dizer que ele emprestava desde que pedissem. Mas Leleco repetiu de novo e eu me convenci de que não era falta de educação falar o que ele estava sentindo, desde que educadamente, e ele estava fazendo exatamente isso. Sem bater, sem gritar, sem ferir de nenhuma forma. Eu disse: "Tudo bem filho, ele não vai, mas nós podemos ir. Você quer ir embora?". As mãozinhas se entrelaçaram nas minhas e eu nem precisei ouvir a resposta.
A reação do meu filhote diante de um momento de muita raiva me veio à cabeça esses dias em que eu estou precisando lidar com esse mesmo sentimento numa proporção, creio eu, bem maior. Como ensinar os filhos a lidarem com a raiva? O meu me ensinou. Não precisa devolver a agressão, não importa se ela seja física, psicológica ou moral. Não precisa levantar o tom da voz, querendo colocar para fora todo o fogo que queima o coração, e nem se calar, engolindo o que mais tarde nem as enzimas mais potentes criadas em laboratório serão capazes de ajudar a digerir.
Meu filho apenas falou. Se aproximou do seu porto-seguro (mamãe) e expressou o que sentia naquele momento. Pediu calmamente para quem estava o ferindo se afastar. O agressor não se afastou e ele, ao invés de brigar por isso, preferiu tomar a iniciativa de virar as costas. Entenderam como lidar com a raiva? Simplesmente não permitindo que te machuquem mais do que suporta. Uma, duas, três vezes, não importa, desde que seja o seu limite. É preciso falar, chorar, não devolver o que quer que seja, e se afastar caso não escutarem quando pedirmos para se afastarem. Porque há um espaço que é só nosso e é ele que devemos preservar, pois ninguém no mundo tem o direito de invadí-lo, nem para roubar uma bola.