Acesse o Mãe da Cabeça aos Pés!!!

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O valor de uma vida

Uma menininha de 1 ano e 3 meses. Diagnosticada com pneumonia em um pronto socorro, internada há quatro dias com um estado de saúde que só piora. Uma equipe de reportagem do canal mais assitido da TV aberta chega para produzir uma matéria sobre o atendimento nos hospitais brasileiros. Neste, em Belém, falta leito na UTI infantil. Falta mais. Falta amor pela vida.
Quando os repórteres chegaram, a mãe só chorava e a menina estava com dificuldade para respirar perceptível no vídeo, a ponto de parecer que já estava indo para outro lugar. Cena de chorar. Chorei compulsivamente e tenho vontade de derramar mais e mais lágrimas ao lembrar do que vi na tela da televisão. A mãe, desesperada, já não sabia o que fazer e apelava para a repórter, explicando tudo que estava acontecendo. A profissional parecia não estar acreditando no que estava vendo a ponto de demonstrar medo de presenciar o que viria depois.
Uma pediatra foi chamada de outro hospital, pois naquele não havia. Ela dizia que tinha que entubar a criança naquele momento. Não tinha como. Não tinha leito, não tinha nada. Mas a reportagem estava acontecendo e não podiam deixar de fazer algo certo? Foi assim que ocorreu uma mobilização de última hora para tentar salvar o anjinho moreno que estava a caminho do céu. Conseguiram improvisar uma UTI e entubaram a garota, mas tarde demais. Ela se foi. E, dias depois, chega um exame de sangue revelando que ela teve mais que pneumonia, teve leishmaniose visceral, doença grave, transmitida por animais e que deve ser comunicada às autoridades de saúde.
Agora me diz, Deus, presidente (que é mulher e mãe), governador, prefeito, diretor do hospital, médicos ou quem puder: em que país vivemos? Como deixam um hospital chegar ao ponto que estava aquele e muitos outros espalhados pelo território nacional? E olha que o deste caso fica na capital de um estado! Como ninguém faz nada para que não aconteçam coisas assim? Como é possível não se sensibilizar com essa e outras tantas histórias absurdas e tristes resultantes da falta de infra-estrutura, do desvio de verba e de puro descaso? Não imaginavam que isso poderia acontecer? Pois acontece e deve acontecer muito mais do que podemos imaginar. Só em uma sexta-feira, um programa de televisão mostrou esse e e muitos outros casos de morte por falta de atendimento.
E onde estão os cidadãos? Os eleitores? Os que se reúnem em milhões para votar na final de um reality show? Os que se mobilizam por causas estudantis? Os que dormem em filas por mais de uma semana para assitir a um show internacional? Onde está a população que foi em peso dar adeus ao ex vice-presidente que morreu cercado pelos melhores especialistas? Onde estão os direitos humanos? Onde estamos nós? Na selva seria melhor...
Eu precisei escrever sobre isso. Preciso chamar a atenção de mães e pais que, assim como eu, vivem no conforto do seu lar e levam os filhos ao atendimento de saúde particular, que podem pagar convênio médico, que não conseguem nem imaginar algo assim.  Eu, dentro da minha sala, no início de um final de semana, tentando relaxar, me vi aflita, aos prantos, com dor de estômago, com insônia. Mas eu estava confortavelmente instalada no sofá de casa com meu filho bem, dormindo tranquilamente no quarto. E quem está no corredor de um pronto socorro neste momento lutando por um filho que não está nada bem?
Adultos, crianças e bebês morrem por causa de pessoas que esqueceram o valor de uma vida. Esqueceram que podia ser a filhinha deles ali. E se fosse, fariam muito mais. Se fosse, nem ali internariam. Frieza. Tristeza. Sofri por essa mãe que perdeu sua princesinha. Sofri por essa menininha linda, que sofreu muito antes de ir embora sem quase ninguém se importar. Que perdeu a vida por causa de pessoas que só se importam com a própria vida. Que não teve conforto de nenhuma espécie, atendimento digno, atenção, carinho e outras tantas coisas em um momento delicado, preocupante, decisivo. A vida continua para a mãe dela, que voltou para sua casinha simples com o laudo da filha sem poder e nem saber como fazer nada. A vida continua para os responsáveis irresponsáveis por esse absurdo. A vida só não continua para essa garota. Ainda bem que, pelo menos agora, ela está em um lugar melhor.

2 comentários:

  1. Confesso que não vi a matéria. Mas, não precisou! Seu post foi tão realista que me emocionou, como se eu a tivesse visto.
    Porque nunca fazemos nada, não é? É como diz a música, "ficar sentado no trono de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes" não adianta nada, né?
    Temos que lutar para fazer nossa parte para melhorar nosso país!!!
    Parabéns pelo post! Emocionante e me fez refletir muito!!!
    Bjos!
    Juliana Almeida
    www.blogdabebel.com.br

    ResponderExcluir
  2. Oi, Beatriz
    Vc escreve muito bem e eu quero muito ver seu post sobre Maternidade Real, da blogagem coletiva proposto pela Carol.
    O meu já está no ar e eu espero que vc goste.

    ResponderExcluir