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terça-feira, 30 de agosto de 2011

O lugar da tia ou o da mãe?

Uma mulher de 35 anos. Perto dela, duas meninas brincando, uma de sete e outra de quase três. Não demora muito e a mulher chama a atenção das pequenas, sempre com carinho. "Bel, não pega o jornal", "Bruna, ajuda sua irmã". As três estavam em um hotel, passando cinco dias de descanso junto a um homem de trinta e poucos. Cena normal e corriqueira para uma família de pai, mãe e filhas. O detalhe é que não eram pai, mãe e filhas, e sim tio, tia e sobrinhas.
Quando a super tia me contou eu quase não acreditei. Ela dispensava muito amor e atenção às espuletinhas. Ela é irmã do pai, o marido é o cunhado que topou ter os dias ao lado da esposa conturbados por rotina de criança, troca de fraldas e manhas à mesa. Até aí, consegui compreender, afinal eram só uns dias e é tão gostoso curtir sobrinhos... Porém, fiquei sabendo que toda essa proximidade entre eles é comum. A tia leva a garota mais velha para viajar e dormir com ela desde quando a pequena tinha apenas um aninho. A mais nova entrou no ritmo e adora a tia. Não é raro a mais velha dizer que quer ir morar com a tia ou a mais nova chorar quando vai para casa. As duas ficam todos os dias com a titia, a partir das dez horas da manhã até começo da noite. A tia leva a mais velha à escola à tarde e a mais nova a acompanha ao médico, no banco, nas horas em home office...
A essa altura da história eu estava me perguntando o mesmo que você deve estar se perguntando. "E a mãe delas, onde está?". Foi o que deixei escapar em voz alta para essa mulher que eu mal conhecia e que mais me parecia uma santa, ou uma sequestradora de filhas dos outros.
- "A mãe trabalha", ela respondeu.
- "Ela deve morrer de ciúmes de você não?"
- "A verdade é que ela não liga muito para as meninas. Só começou a trabalhar há pouco tempo, mas antes mesmo já não dava atenção. Deixava as duas trancadas no quarto, com fralda cheia, enquanto ela ficava trancada no outro."
Meu DEUS. Até então, eu achei mesmo que podia ser apenas um caso de uma mãe que precisa trabalhar e não tem opção a não ser deixar as filhas com a tia. Mas, depois, fui descobrindo que essa mãe mal dá comida para as filhas, que prefere nem tentar tirar a fralda da mais nova (ainda fraldada) porque assim é "mais fácil". Quando bate ciúmes da tia, tranca as meninas em casa e não deixa ninguém ver.
A tia das crianças me contou que a mãe havia tido um péssimo relacionamento com a própria mãe e que isso talvez explique tudo, embora a tia mesmo tenha dito que não entende nada... Também relatou que a figura materna em questão tem fases de depressão e que toda a família já tentou ajudar, inclusive levando a psicólogo. Mas, segundo suas palavras: "Junta má vontade, com preguiça com doença". Por isso, a tia e a avó das crianças acharam ótimo quando a mãe arrumou emprego. Pelo menos, assim, essas duas criaturas inocentes podem ficar menos tempo em casa com quem não dá a mínima para elas. Pelo menos assim, elas têm atenção.
Foi dessa forma que a tia disse ao irmão que poderia deixar as duas com ela. Tomou as responsabilidades para si e vive uma verdadeira rotina materna. O irmão, o pai, finge que não vê. Ela vê muita coisa e, por isso, preferiu que a mais nova nem fosse para a creche ainda... Foi ela quem tirou a fralda da mais velha, ela quem se preocupa em desfraldar a mais nova. Ela coloca horários. "Na casa delas, não tem hora para comer, para dormir...". E ela assume: "Como participamos muito, acabamos interferindo na educação". Mas teria como ser diferente? Deveria ser diferente?
Eu lhe dei os parabéns e fiquei imaginando o quão difícil é para ela. Afinal, se para nós mães o dia a dia já é puxado, com minutos em que a paciência vai lá para longe, imagina para uma mulher que não pediu para ter duas pimentinhas junto a ela. Mas, ela me garantiu que tem paciência sim, e que leva tudo numa boa. Me contou ainda que compra roupas e brinquedos para as duas, já que percebe que sempre falta alguma coisa. "Meu marido fica com pena. E ele adora a mais velha", disse, justificando que ele não tem muito jeito com a caçula, mas que se esforça. Como se tivesse que justificar alguma coisa...
A tia tenta engravidar há uns bons anos e, mesmo com tratamento, não consegue. O médico, na última consulta, lhe disse que agora engravida, já que tem duas crianças para se preocupar. No último ano, a tia teve depressão por causa do sonho ainda não concretizado. Na época, a sobrinha mais velha disse à mãe, e pelo visto na frente de alguém:
- "Por que você não troca com a tia? Ela tem casa, carro e tudo o que você quer. E ela só quer o que você tem: filhos".

* Os nomes das meninas foram trocados.
* Os diálogos foram reproduzidos de forma editada