Os primeiros sete dias de agosto consistem na Semana Mundial da Amamentação. Mas o que isso significa? Que é preciso pensar a respeito. Que é preciso conscientizar, incentivar, apoiar. Mas ainda é? Sim, é. Porque por mais informações que sejam oferecidas de diversas maneiras, algumas mães insistem em duvidar do próprio corpo. Porque enfermeiras e pediatras continuam oferecendo leite artificial no primeiro dia de vida dos bebês e deixando que o apoio fique apenas à cargo de tias, mães, sogras, avós, amigas, marido e livros. Porque é necessário torcer para estes estarem do lado certo... Quando lemos e conversamos sobre aleitamento durante a gravidez, tudo parece tão mágico e fácil. A mãe coloca o neném no peito e ele suga que é uma beleza! O tal do colostro dá logo lugar para o leite e o filhote mama sem parar. Pode até ser que com muitas mulheres aconteça desse forma, mas minha vivência e a de outras tantas que conheço passam longe do perfeito cenário de comercial do Ministério da Saúde. Por que ninguém fala do quanto é difícil amamentar? E não estou me referindo às rachaduras no bico, pois sobre elas, não nos faltam alertas, mas sobre outras dificuldades que só quem passa por elas sabe o valor que teria conhecê-las melhor antes de enfrentá-las.
Eu faço parte do grupo de parturientes que quiseram dar de mamar logo na sala de parto. Meu pequeno não quis, não conseguiu, não mamou. E sabe do que lembro? De enfermeiras em cima de mim, tentando colocar meu seio em uma boquinha que mais queria saber de chorar. Logo vi que aquele "clima" não era legal e pedi para parar. "Deixa, ele não quer", disse às enfermeiras. "Não tem problema filho, está tudo bem, depois você mama...", susurrei no ouvido do meu bezerrinho. Quando ele chegou no quarto, tudo se repetiu. Ninguém me perguntou se eu queria ficar sozinha com meu filho para nos entrosarmos. E veio aquela "mão amiga" de outra enfermeira querendo abrir a boca do meu lindinho e me ensinar como colocar o bico lá da maneira certa. Está certo que tem uma forma adequada para o peito não ficar machucado, para facilitar a pegada, mas todas as mocinhas supostamente treinadas que passaram pelo meu quarto desde o parto só me ensinaram o melhor jeito de ficar desesperada!
Meu filhotinho não pegava o bico, meu leite obviamente não dava nem sinais de descer e toda a minha segurança ia embora quando uma pediatra resolvia afirmar e reafirmar que eu tinha pouco colostro. Como assim pouco? Eu já tinha lido o suficiente para saber que esse líquido amarelo inicial, o tal do colostro, vem em pouca quantidade e que nem por isso deixa de alimentar, sendo inclusive de extrema importância nas primeiras horas de vida do recém-nascido. Li também que bebês nascem com reserva de energia e que muitas vezes não querem mamar em um primeiro momento, o que não os colocam em risco de maneira alguma. Mas eu escutei incontáveis vezes dessa pediatra incompetente e de outras duas enfermeiras mal preparadas que eu tinha pouco colostro. Insegura, chorei no hospital, com medo de não conseguir amamentar e, pior ainda, com receio de que minhas convicções prejudicassem meu bebê. Imagine que elas eram não dar leite artificial, nem água, só o peito.
Lembro de ter pedido para ir ao banco de leite (no mesmo andar do quarto em que eu estava) e a pediatrazinha autoritária dizer que não era o caso. Lembro de ter recebido a sugestão de dar Nan desde a primeira manhã e de ter brigado até o fim para não deixar, me sentindo acoada e teimosa o tempo todo. Lembro de ter recebido boas dicas do meu obstetra, que teve paciência para me confirmar aquilo que eu já sabia e contar que tem bebês que demoram mesmo para começar a mamar. Lembro que no dia de ir embora, notamos Léo amarelinho, o que foi diagnosticado como icterícia, algo comum em recém-nascido, mas que poderia piorar com a falta de leite. Ele precisava ingerir líquido para o rim funcionar e mandar o amarelo para fora... E aí, fui obrigada, pelo bem dele, a deixar darem leite artificial e água.
Antes de chegar nesse ponto, havia questionado os pediatras de plantão sobre um roxinho na clavícula do Léo e ouvi que não era nada, algo normal. Ele chorava muito quando eu o colocava para mamar do lado direito, com seu braço esquerdo para baixo. Só quando saí da maternidade, o pediatra que procurei me contou que o roxo era uma clavícula quebrada durante o parto, de fato algo normal, mas que podia estar complicando ainda mais as mamadas. Só Léo sabe a dor que ele devia estar sentindo ao tentar mamar no seio direito.
Da consulta com o santo pediatra, voltei imediatamente ao hospital, para o Banco de Leite. Ele telefonou lá e pediu para me antenderem na hora. Foi a melhor coisa que alguém poderia ter feito por mim naquele momento. Uma moça negra, magra, discreta e simpática me recepcionou com toda a calma e atenção. Coloquei Léo em um carrinho de acrílico, vesti um avental verde com dois buracos para o seio, touca e máscara. Lavei as mãos como a profissional me orientou e entrei em uma sala cheia de banquinhos e travesseiros, onde estava outra mãe sentada com o peito de fora, aprendendo a amamentar. Sim, precisamos aprender. Às vezes sozinha, às vezes com ajuda de terceiros. E foi lá que aprendi.
Primeiramente, a mocinha me ensinou uma massagem para soltar as "pedras" de leite. Tais nódulos doem quando apertados, mas o alívio que a tal manipulação circular promove é uma sensação deliciosa, que sinto novamente só de escrever sobre ela. Depois de cinco minutinhos de apertõezinhos, meu seio esguichou! E eu desabei a chorar... "Achei que não tinha leite", disse à enfermeira sentada à minha frente ainda com as mãos sobre meu peito. Ela calmamente disse que o nervoso atrapalhava, que eu tinha que respirar e ficar serena. Eu já sabia. Mas nenhuma pessoa que havia me orientado até então havia lembrado disso.
A mocinha me explicou o quão importante é a tranquilidade, e também o jeitinho dessa massagem que amolece literalmente o seio, deixando o bico mais maleável e fácil de ser abocanhado pelo recém-nascido. Léozinho abocanhou e mamou como ainda não havia mamado nos primeiros quatro dias de vida. Ele até quis cochilar, sem chorar, tranquilo, satisfeito. Aí ela me ensinou a manter o bebê alerta para mamar (mexer no pé, nas mãos...). Ele arrotou e mamou no outro seio, o direito, mas sem que a clavícula fosse pressionada. No Banco de Leite, com a informação que eu tinha sobre a fratura, aprendi outras posições para amamentar, mais confortáveis nestes casos. A moça também deixou bem claro que o tamanho do bico não influenciava em nada e, ao olhar para o lado, vi que ela não estava mentindo já que uma mulher com um bico gigantesco passava pelo mesmo problema que eu!
Voltei lá mais duas ou três vezes, não lembro, mas o bastante para ir para a casa segura e confiante sobre meu próprio corpo e o do meu filho. Tive que manter alguns mililitros de leite artificial na dieta do Léo nas primeiras semanas, mas apenas uma quantidade insignificante que foi desaparecendo conforme ele e eu íamos pegando mais e mais o jeito. O bico rachou, claro. As massagens que aprendi, as manhas da minha guru e as receitinhas caseiras de luz e vitamina E me mantiveram firme no objetivo de dar o meu leite e só. Léo mamou muito até um ano e dois meses, sem complemento.
Contei tudo isso para mostrar como os profissionais de saúde são mal instruídos, pouco dispostos e nem um pouco humanos. Dizer à uma mãe que acaba de parir que ela tem pouco colostro tem consequências na auto-estima dela, assim como estou convencida de que dar Nan ao neném sem necessidade pode resultar em dores de barriga igualmente sem necessidade. E sei que esse tipo de situação não acontece só comigo. Tenho amigas que foram induzidas a permitir que dessem um copinho de Nan aos seus filhos para elas poderem descansar e outras que ouviram de médicos que o leite iria secar rapidamente (isso eu também ouvi de uma gastropediatra que não sabe nada!).
Fico feliz quando vejo mães insistindo no aleitamento materno, mesmo com pessoas questionando quantidade e qualidade do leite. Fico contente se, contando minha experiência, contribuo para que outras não passem pelo mesmo que passei e que, se passarem, saibam administrar. É claro que respeito mães que não queiram dar de mamar, pois o corpo não é meu, mas se essas mesmas mães quiserem discutir a respeito, terei enorme prazer em convencê-las de como é maravilhoso amamentar. Tenho consciência de que muitas não amamentam por razões mais fortes que elas, assim como penso que algumas delas, se mais apoiadas e melhor orientadas, poderiam oferecer o peito por meses e meses.
Só não concordo com essa maneira repetitiva do poder público e da sociedade tratarem o assunto. Ministério e secretarias de saúde, não me venham mais com comerciais e folhetos mostrando mães e filhos grudados, bonitos e felizes. Mostrem também lado difícil. E quando digo isso, não me refiro só a dor que sentimos no início ou ao leite que empedra, mas ao fato de nem todos os bebês sairem abocanhando o seio da mãe e de nem toda mãe obter o sucesso no aleitamento sozinha. Informem os leigos, treinem os ditos especialistas. Montem uma rede de conforto às mães, proporcionem e facilitem o contato delas com bancos de leite logo no primeiro dia, deixem-nas à vontade no quarto para encontrarem seu próprio ritmo sem ninguém ditar ou forçar nada. Apóiem quem enfrenta obstáculos e também quem mais parece uma vaca leiteira.
Senhores médicos, não culpem o colostro, nem o bico, nem saiam receitando remédio para o leite descer, mas incentivem a força de vontade e a coragem, e prescrevam confiança. Caros amigos e familiares, não façam tantas perguntas, mas se proponham a deixar a nova família à vontade na hora da refeição do rebento. Abracem, deixem claro que se precisarem é só chamar, e tenham certeza de que quanto mais rápida a visita, mais agradecida a mãe ficará.
Enquanto isso, mães: cobrem seus direitos, briguem pelo seu leite assim como pelo parto que desejam sem que ninguém invente uma desculpa para desencorajá-las. Sejam fortes, mesmo fragilizadas. Contem suas histórias, amparem amigas, conhecidas e desconhecidas com suas trajetórias. Respeitem as que pensarem diferente de você e optarem logo pela mamadeira, mas não deixem de dar sua opinião quanto aos benefícios que o aleitamento materno traz para mães e filhos. Confortem mulheres que não puderam, por qualquer razão, amamentar. Mas estimule-as a, quem sabe numa próxima vez, tentar. Digam a verdade sobre dor, noites mal dormidas e restrição alimentar em função das cólicas, só não deixem de lembrar que dor passa, o sono a gente repõe a hora que dá e o chocolate, o café e o leite voltam para a dieta assim que o intestino do neném funcionar.
A Semana Mundial da Amamentação é positiva e sou totalmente a favor dela. No entanto, por experiência própria e observação de mães à minha volta, estou certa de que nada adianta promovê-la se o mundo não for verdadeiramente a favor da amamentação todas as semanas. Não sou contra as belas fotos de atrizes amamentando seus filhos, nem contra panfletos, palestras e reportagens. Só acho que devemos usar destes e de outros artifícios para mostrar o aleitamento materno com a mais pura e dura verdade. Assim, preparamos as futuras mamães para uma maternidade real e com maiores chances de realização. Porque, por mais difícil que a realidade possa ser, ela não deixa de ser linda... Pelo menos quando estamos falando de mulheres com seios destruídos e ainda assim felizes ao colocar a cria sobre o peito!
Prazer em conhecê-la Beatriz! Lindo relato! Posso colocar um link para a sua postagem de hoje no blog da Parto do Princípio? dá uma olhada no nosso blog: http://partodoprincipio.blogspot.com/.
ResponderExcluirSe você deixar, manda um e-mail pra mim! stellajornal@gmail.com. Bjocas
Muito bom seu post. Depois que passamos pela experiência, dá até raiva ver essa campanha vazia do governo. Não faz o menor sentido estimular a amamentação sem explicar como ela funciona. Eu tive facilidade na amamentação dos meus dois filhos e mesmo assim precisei de ajuda no começo, imagina então aquelas que tem algum problema ou uma insegurança maior...
ResponderExcluirBeijos