Semana passada estive em uma apresentação sobre a pesquisa "Nascer no Brasil", que é realizada pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, com auxílio do CNPq e Projeto Inova ENSP, com o objetivo de investigar as condições de parto e nascimento no país. Não fui a trabalho. Fui por vontade de estar lá. Pouco como jornalista, muito como mãe. O evento, realizado na Unicamp, visava divulgar o estudo que, na região de Campinas, conta com a participação de docentes e alunos de pós-graduação do Departamento de Enfermagem da Faculdade de Ciências Médicas da universidade.
Eu ando bem interessada em assuntos relacionados à maternidade (como já devem ter percebido!), e como o evento foi aberto ao público, achei uma oportunidade interessante de ver de perto o que acontece no mundo materno ao meu redor. Lá, encontrei mulheres engajadas profissionalmente. E também falando da pesquisa como um projeto pessoal. Curioso como em um encontro sobre trabalho, as mulheres dão um outro tom. Pelo menos quando o assunto tem a ver com elas mesmas! A apresentação, a mesa redonda e o debate tiveram não só exposições de pessoas capacitadas, mas de figuras femininas que falavam com o coração e conhecimento de causa.
A atmosfera era essa, e precisava ser. O assunto era "nascer". Algo que no Brasil e no resto do mundo está bem complicado. Estatísticas absurdas de cesáreas, relatos de partos normais mal assistidos. Os índices de cesarianas, por exemplo, aumentam em diversos países, mas Brasil e China apresentam os maiores. Assim como o modelo de partos realizados por obstetras (e não por obstetriz) também acontece nos Estados Unidos (e veio de lá), mas são os brasileiros que mais usam o esquema para escolher pelo parto da paciente.
Nossos médicos rebatem as críticas e, muitas vezes, dizem que as informações científicas sobre os malefícios da cesárea não servem para o país, já que todas são internacionais, baseadas em mães e bebês estrangeiros. Queridos doutores, em um curto espaço de tempo, não haverá mais essa desculpa. Porque até o fim do ano, o estudo citado acima terá a amostragem de 24 mil partos, realizados em 266 hospitais, públicos e privados. Mostrará não só como é o nascimento, mas também como é a assistência a ele e a tudo que uma parturiente vive no pós-parto. Os entrevistadores coletam, no hospital, diretamente com as mães e quem as assistiu, dados que englobam tópicos como episiotomia, anestesia, dor, desconforto, aleitamento... Entre 45 e 60 dias depois, a nova mamãe ainda recebe um telefonema para contar o que aconteceu desde a alta.
Nem preciso dizer o quanto o projeto é importante. Em um país que cresce economicamente, e que se diz rico daqui a poucos anos, é inaceitável que as mulheres continuem sendo mal atendidas no momento em que mais precisam de apoio e cuidado. É uma vergonha saber que aqui é sete vezes maior a mortalidade de puérperas negras. É triste constatar, sem esforço, que abrem-se barrigas de mulheres saudáveis, cujos filhos também são saudáveis e poderiam vir ao mundo espontaneamente. É fácil notar que há duas opções: parto cirúrgico ou normal com sofrimento. E que, por causa desse despreparo de profissionais e da falta de informações das pacientes, a primeira opção torna-se bem de consumo da grande maioria.
Hoje, há poucas escolhas para as gestantes. Ter que brigar com especialistas pelo parto que deseja. Ter que fugir do hospital para parir do jeito que sonha em casa. Ter a sorte de encontrar um doutor que não coloca feriados acima da natureza. Ter que sucumbir aos ditadores de branco e se deitar sob os holofotes do centro cirúrgico. Qualquer uma delas chega bem perto de ser humilhante, se já não é. Porque não deveríamos ter que implorar pelo parto normal. Ele deveria ser normal.
Obviamente não está em pauta aqui e nem no estudo a escolha das mulheres pela cesárea. Elas são levadas a isso. Mas, talvez não fossem se o atendimento nos consultórios e maternidades fosse outro. Hoje, informação é o caminho mais curto para dar à luz sem grandes intervenções, e sempre será. A diferença é que, assistidas por pessoas capacitadas e a favor do parto natural, as gestantes poderiam ser encorajadas a deixar o corpo comandar quando é ele mesmo que deve fazer isso. Se, no futuro, essa for a realidade e, ainda assim algumas mulheres preferirem o parto cirúrgico, teremos certeza de que são elas quem estarão decidindo por ele.
Como disseram no encontro, a tecnologia na medicina é ótima quando salva vidas. Mas, usada indiscriminadamente, passa a ser danosa. É claro que há profissionais que usam o discernimento. Aqueles que incentivam as mulheres a se empoderarem. Os que nos escutam, amparam, passam segurança, respeitam nossas escolhas. Alguns aderem à ideia das mães "zen" e colocam música de fundo, diminuem as luzes ou topam realizar o parto na água em domicílio. Para quem não encontrar a espécie rara, há outras profissionais competentes, que muitas vezes decobriram a vocação depois de parir e sentir na pele o desconforto da realidade. Não à toa, elas hoje se proliferam como bactérias do bem: doulas apaixonadas pela profissão, obstetrizes que respiram fundo para não serem sufocadas pelo ar hospitalar, enfermeiras que nos dão as mãos nas salas de parto. Há ainda grupos de incentivo ao parto natural, professoras de Ioga militantes do trabalho de parto, cursos de gestantes que estimulam a auto-confiança e plantonistas orientados para o parto de cócoras.
Pena que estas são apenas alternativas, e não parte do atendimento às mulheres grávidas. Porque a questão, como a pesquisa já aponta, não é só nascer no Brasil. É parir! Quem já pariu sabe muito bem como é. Então, que bom que vão ouvir essas mulheres! Porque todas tem muito a dizer.
Realmente parir aqui no Brasil é complicadíssimo. Tive uma cesárea totalmente desnecessária. Apesar de bem resolvida com o PN, de ter informações, buscar, lutar e saber todas as desculpas que os médicos dão, acabei entrando na faca. Não por vontade minha, mas porque em um determinado momento foi complicadíssimo continuar batendo de frente com tudo isso. Infelizmente é essa a nossa realidade por aqui.
ResponderExcluirBeijoss
Eu fui "vítima" de uma médica mal preparada, uma plantonista que não deveria ser autorizada a ter contatos com outras pessoas, quanto mais fazer parto! O resultado foi um parto normal super complicado e traumático pra família inteira...
ResponderExcluirNa segunda vez acabei indo de cesárea porque o bebê estava sentado, mas ainda tive a sorte de encontrar 2 obstetras (uma em cada gravidez) adeptas do PN, sei que isso é raridade. Pena que em nenhuma das vezes consegui uma boa experiência com PN...